Nada melhor que começar esse artigo com a
definição do iluminismo por um dos mais importantes pensadores desse movimento,
o filósofo alemão Immanuel Kant (1724 – 1804).
“O
iluminismo representa a saída dos seres humanos de uma menoridade que estes
mesmos se impuseram a si. (…) Sapere aude! [Ouse saber!] Tem coragem para fazer
uso da tua própria razão!”
Nesse pequeno trecho é possível extrair um dos
pontos mais marcantes desse período, a razão. O próprio nome do movimento nos
remete a luz – não é à toa que esse período é conhecido como “Século das Luzes”
-, que pretende se contrapor a herança medieval que ficou conhecida como “Idade
das Trevas”, quando todo o conhecimento era subordinado à religião. Neste
artigo, nós vamos te apresentar o que foi o Iluminismo, o contexto em que ele
estava inserido, assim como mostrar suas ideias e o legado deixado para os dias
de hoje.
O
que foi o Iluminismo?
O Iluminismo se iniciou como um movimento
cultural europeu do século XVII e XVIII que buscava gerar mudanças políticas,
econômicas e sociais na sociedade da época. Para isso, os iluministas
acreditavam na disseminação do conhecimento, como forma de enaltecer a razão em
detrimento do pensamento religioso. Vale ressaltar que os iluministas não eram
ateus, porém, eles acreditavam que o homem chegaria a Deus por meio da razão.
Grandes pensadores, de diversas áreas, fizeram
parte dessa corrente com o intuito de acelerar o progresso da humanidade. O
precursor do iluminismo René Descartes (1596 – 1650), considerado o pai do
racionalismo, dissertou em sua obra “Discurso do Método”, que para se
compreender o mundo, deve-se questionar tudo. Essa nova forma pensar se opunha
ao raciocínio da época, já que naquele período histórico, os governos
autoritários e a igreja católica não permitiam questionamentos.
O pensamento iluminista foi importante para o
desenvolvimento da ciência e do humanismo – que pregava a centralidade e
racionalidade humana. Várias obras foram desenvolvidas nesse período, e uma em
especial sintetizava a ideia de disseminação do conhecimento pregada pelos
iluministas: a Enciclopédia. A Enciclopédia, editada por Denis Diderot (1713 –
1784), continha milhares de artigos e ilustrações de diversos cientistas,
filósofos e pesquisadores de campos de conhecimentos distintos. Essa obra teve
35 volumes e foi muito importante na exposição dos conhecimentos humanos em um
formato ordenado e metódico, com o intuito de apresentar uma alternativa aos
ensinamentos impostos pela religião.
Os iluministas também questionavam os poderes
absolutistas dos governos, pregando assim maiores liberdades individuais e
políticas. Na economia, não foi diferente, nesse período, as ideias
desenvolvidas por Adam Smith (1723 – 1790) foram aceitas como uma forma de
substituir o modelo mercantilista, pois os iluministas tinham uma crença em que
esse novo meio econômico seria ideal para um maior progresso, liberdade e
justiça social. Por fim, esse movimento também merece ser lembrado pelas
consideráveis conquistas nos âmbitos sociais e nas liberdades individuais, pois
a sua crença buscava uma maior igualdade entre as pessoas, pondo um fim nas
sociedades estamentais – estrutura social em que não era permitido ascensão
social e cada grupo tinha a sua função para a sociedade pré-determinada. Além
disso, os ideais iluministas acabaram guiando diversas nações para o fim de
governos absolutistas e para a busca da independência dos países que ainda
estavam sob controle de uma nação estrangeira.
Qual o contexto do surgimento desse movimento?
Naquele período, a Igreja Católica era
detentora do conhecimento e a sua forma de pensar era soberana. Não havia
linhas de pensamento alternativas, pois o clero fazia questão de impor as suas
doutrinas religiosas para todos os cidadãos. O domínio dos católicos na
sociedade europeia foi herdado da Idade Média, período no qual a doutrina posta
era teocêntrica. Entretanto, desde Galileu Galilei (1564 – 1642), considerado o
“pai da ciência moderna”, que descobriu que a Terra não era o centro do
universo, o conhecimento eclesiástico começou a perder o seu domínio. Nesse
contexto, em que o pensamento científico vinha ganhando forma e seguidores após
Galileu, o Iluminismo incorporou a ciência como um forte alicerce para os que
defendiam uma maior racionalidade no desenvolvimento intelectual.
Ainda sobre religião, na época, não existia
liberdade religiosa, assim os cidadãos eram induzidos a crer na religião única
do Estado em que viviam. As outras formas de expressão de fé eram taxadas como
“erradas”, por não seguirem os preceitos estabelecidos pela religião oficial.
É, a partir desse cenário, contrariados pela restrição da liberdade religiosa,
que os iluministas defenderam a livre escolha de crença pelos indivíduos,
podendo até escolher não tê-la. Na política, o Absolutismo, que garantia poderes
ilimitados aos seus governantes, foi um dos grandes alvos do movimento
iluminista. Assim como o controle religioso, essa forma de governo também foi
herdada da Idade Média, ela consistia em nobres governando e vivendo às custas
da população, com a benção dos religiosos.
O povo acabava se subjugando a esse formato de
governo, seja pelo medo ou pela crença religiosa, e ainda ficavam como
responsável por pagar impostos e trabalhar para que os nobres e o clero
aproveitassem os seus diversos privilégios. Os debates sobre essa forma de se
governar foram se acentuando com o avanço do movimento Iluminista. Inclusive,
foi um dos mais renomados intelectuais iluministas, Montesquieu (1689 – 1755),
que através do seu livro “Espírito das Leis”, trouxe uma nova forma de pensar o
governo. O autor sugeriu a tripartição do poder em legislativo, judiciário, e
executivo, como forma de evitar abusos por parte das autoridades.
Na questão econômica, o modelo mercantilista
trazia duas questões determinantes para o contexto daquele momento histórico:
1) O modelo econômico acabou enriquecendo a
burguesia – formada por profissionais liberais e comerciantes -, que com o
passar dos anos começaram a questionar a estrutura da sociedade da época;
2) O mercantilismo era um modelo econômico em
que o Estado intervia demais, limitando assim a liberdade dos agentes
econômicos em uma sociedade.
Além disso, nesse período surgia um novo
economista, Adam Smith, pregando um modelo econômico mais livre e com uma
capacidade de geração de riqueza muito maior do que era usado até então, o
capitalismo.
E com base nesse contexto econômico
apresentado, o movimento iluminista se caracterizou por ser contrário ao
mercantilismo, pregando assim um sistema mais livre, racional e justo, na qual
existia a possibilidade de ascensão social por parte dos cidadãos.
Por fim, vale lembrar que o conceito de
propriedade privada não estava muito bem estabelecido na Idade Média e foi um
ponto importante nos debates iluministas. Entretanto, não havia consenso entre
os próprios intelectuais do movimento, pois John Locke (1632 – 1704) enfatizava
o direito natural do homem a propriedade, ao passo que Rousseau (1712 – 1778)
ia na direção oposta, na qual apontava a propriedade privada como a razão dos
males da humanidade.